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Mulheres
vencem preconceitos no curso de Engenharia Civil
Regina
Sampaio:
"Deste criança, sempre gostei muito de Matemática" |
O
crescimento da presença feminina nos cursos de graduação da Universidade
Federal do Pará levou as alunas a conquistar, nas matrículas do primeiro
semestre de 2008, a maior parte das 24 mil vagas existentes na Instituição.
Esse aumento resultou, também, na penetração delas em antigos redutos
masculinos, como a Faculdade de Engenharia Civil (FEC).
Este processo culminou, no período de 2004 a 2008, com a ocupação de mais de 150 das suas 600 vagas. Em Tucuruí, onde o curso de Engenharia Civil da UFPA também se instalou, elas ocupam quase a metade das vagas. Um dos pretextos antes utilizados para afastar as alunas da FEC era o de que as mulheres não raciocinariam com rigor matemático porque seriam muito afetadas pelas emoções. A inconsistência deste pretexto foi definitivamente revelada na própria Faculdade pela engenheira civil Regina Augusta Campos Sampaio. Aos 34 anos de idade, casada e mãe de uma garota de sete anos, Regina é professora de Cálculo Avançado no mestrado de Engenharia Civil da UFPA. Tem doutorado na sua área e interesse especial em Matemática Aplicada à Engenharia Civil. Nesta entrevista ao Beira do Rio, ela fala de sua ligação com a Matemática, de sua formação acadêmica, sua carreira e do preconceito contra a mulher. Beira do Rio - Quando a senhora percebeu que gostava de Matemática? Regina Sampaio - Desde criança, sempre gostei muito de Matemática. Ela é muito bonita, pois tem sempre uma representação para a natureza, como se fosse uma linguagem. Você pode representar o fluxo de um rio através de uma equação. Ou a vibração de um cabo sob a ação do vento. Então, eu gostava de ler sobre Matemática, de estudá-la. Lembro que eu tinha três livrinhos de Matemática Elementar e me divertia resolvendo os problemas que eles apresentavam. Alguns números são muito interessantes. BR - Ao dizer que a Matemática é bonita, a senhora está dizendo que a procura de rigor matemático não exclui o desfrute de sensibilidade estética? R.S. - Não há dúvida de que você pode usar a sensibilidade estética numa aproximação com a Matemática. Quem gosta de Matemática acha que ela é bonita, quando a estuda. BR - Dê exemplo de um número interessante. R.S. - O número Pi, um número que aparece em muitas equações que representam a natureza. BR – Um dos responsáveis pelos projetos pedagógicos da Faculdade de Engenharia Civil, o professor José Hélio Elarrat, quando soube desta entrevista, lembrou que a senhora, no curso de graduação, às vezes assistia sozinha às aulas dele. R.S. - Eu achava as aulas do professor Elarrat, de Análise Matricial, muito interessantes e não gostava de perdê-las. Fui assídua, como, aliás, eram assíduas também as minhas colegas, com as quais mantenho contato ainda hoje. No curso de graduação, eu sentia que nós, as alunas, precisávamos sempre melhorar para podermos nos firmar ali. BR - Onde a senhora cursou o mestrado? R.S. - Fui aprovada, simultaneamente, em dois cursos de mestrado de Engenharia Civil: o da Universidade de São Paulo e o da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Preferi o segundo porque nele obtive, logo, bolsa de estudo. Lá fiz o curso na área de Estruturas, para a qual já tinha uma formação desde a graduação. Havia, inclusive, feito um estágio no escritório de Cálculo do professor Archimino Atayde. BR - O que a senhora estudou na PUC? R.S. - Na PUC, desenvolvi um crescente interesse por Dinâmica, uma área atualmente muito valorizada. Muita gente está se encaminhando para ela a fim de estudar o efeito das vibrações em estruturas submetidas a ventos e terremotos. Um dos professores da PUC, João Luís Pascal Roehl, desenvolvia um projeto para a Eletronuclear, através do qual estava sendo feita uma reavaliação da parte física do reator da usina nuclear Angra III. Ele se tornou meu orientador e fui aceita na execução deste projeto. Propusemos novas metodologias de avaliação, não só do prédio do reator, como, também, dos seus sistemas secundários, como o das tubulações que esfriam o reator - um sistema que não pode falhar, pois se sofrer uma pane o reator explode. Fizemos um trabalho extenso e eu lidei com o tema “Novas Metodologias para Análise Estrutural de Usinas Nucleares” ao longo do meu mestrado e do doutorado. BR - Foi logo depois do doutorado que a senhora retornou à UFPA? R.S. - Foi. Entrei em contato com o professor Remo Magalhães de Souza, que desenvolvia um projeto para a Eletronorte relacionado com vibrações, justamente a minha área. Ganhei uma bolsa de estudos do CNPq para participar do projeto e depois permaneci no núcleo de pesquisadores coordenados por ele, o NICAE (Núcleo de Instrumentação e Computação Aplicada à Engenharia). Atualmente, estamos desenvolvendo, através de um convênio com a Vale, um projeto sobre avaliação estrutural de pontes e viadutos ferroviários. BR - Não foi o NICAE que realizou em Belém um congresso internacional? R.S. - Em 2006, o NICAE organizou, em Belém, o Congresso Ibero-Latino Americano de Métodos Computacionais, do qual participaram palestrantes convidados dos Estados Unidos, da Áustria, do Reino Unido e de outros países. O evento teve 65 coordenadores de mini-simpósios e aceitou 489 trabalhos, que envolveram 1.119 autores. Este congresso já foi realizado na Argentina, no Chile, na Espanha e na Itália. Seu objetivo é criar um fórum onde professores, pesquisadores, profissionais e estudantes possam trocar idéias e informações sobre métodos e sistemas computacionais empregados na Engenharia. BR - Em algum momento em sua carreira, o fato de ser mulher lhe atrapalhou? R.S. – Há uma situação difícil que a mulher sempre enfrenta: ela casa e, quando quer ter filhos, isto a afasta um pouco da vida profissional, o que leva algumas pessoas a supor que ela permanecerá envolvida somente com seus problemas familiares. Eu tive uma filha no meio do meu curso de doutorado. Precisei voltar a Belém porque também estava com problemas de saúde e meu marido tinha, igualmente, de regressar. Naquelas circunstâncias, precisava muito da bolsa de estudos fornecida pela PUC do Rio. No entanto, houve lá quem acreditasse que eu não iria concluir o doutorado, e, por isto, cortaram a bolsa. Fiquei um ano sem ela. Quando minha filha completou seis meses, telefonei para a PUC e avisei: ‘Vou voltar, quero recuperar minha bolsa’. Consegui, mas tive de ficar lá, sozinha com a minha filha. Meu marido ficou em Belém. Em resumo, numa situação desta, ninguém aposta em você, se você for uma mulher. Mas, minha filha nasceu e hoje tem sete anos. Ela se chama Sophia em homenagem à Sophie Germain, a matemática que viveu no século XVIII e, sozinha, na biblioteca do pai, aprendeu Matemática a ponto de desenvolver o início da Teoria das Vibrações em placas. BR - Então, ainda há preconceito contra a mulher na Engenharia Civil? R.S. - O preconceito fica no ar, porém não me impede de fazer coisa alguma, nem de receber apoio de muita gente. |
Postado por
Ezequiel gomes
Regina Sampaio é um grande exemplo de mulher que conseguiu quebrar barreiras. Infelizmente muitos pensam que engenharia civil é um curso somente para homens, mas isso não é verdade. Somos capazes de fazer tudo e conquista nosso objectivos como qualquer pessoa.
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